Uêba, digg-likes, Yahoo Posts e “experts”

Nota importante: apesar de eu ser um dos consultores do projeto Yahoo! Posts, não estou aqui exprimindo a opinião do Portal Yahoo nem da LiveAD, exprimo unicamente a minha opinião, com a autoridade de quem há seis anos analisa conteúdo e já publicou, no Uêba, um site que não é propriamente social, mas é colaborativo, mais de 66.000 links.

Mas antes de entrar no post propriamente dito, mais dois esclarecimentos prévios são necessários para que não se distorça o que vem pela frente.

O primeiro é que eu acompanhava Kevin Rose no The Screen Savers e em seu blog, comecei a freqüentar o Digg logo que foi anunciado, fui usuário de primeira hora, e isso aconteceu quando eu estava reformulando o sistema do Uêba para um desenvolvido por mim. Na realidade eu cheguei a adicionar funções que me permitiriam fazer o Uêba funcionar por votos, tal como o Digg, e por duas vezes, uma na época da implantação do novo sistema e outra em meados de 2007, eu balancei muito entre ativar ou não a votação. Em ambos os casos, optei por não ativar. Então, o Uêba não foi o primeiro Digg nacional, simplesmente porque eu não acreditei que o modelo funcionaria aqui.

O segundo é um esclarecimento ao termo autopromoção que eu aplico no site. Ele não é amplo. Eu me refiro apenas àqueles que procuram autopromoção a qualquer custo e não tem o menor senso de autocrítica. Eu não acho ruim receber, no Uêba, material bom enviado pelo próprio produtor, acho péssimo receber material que é clara e notoriamente uma porcaria. Inclusive falei para isto para a Lúcia Freitas e ela publicou aqui.

Isto posto, sigo.

Na raiz do bom funcionamento de um site como o Digg está o aspecto colaborativo, altruísta, de seus usuários, o desejo de indicar algo interessante pelo simples motivo de ser interessante, e certamente sem a ânsia de autopromoção.

A etiqueta não escrita que reinava no Digg à época que eu acompanhava o site, dizia ser aceitável que o usuário enviasse seus links próprios, desde que estes representem uma pequena fração da sua quantidade de contribuições. No Digg, quem enviava muitos links autopromocionais, terminava tendo o domínio banido, ou colocado em hipersensibilidade, ou seja, uma situação em que ao primeiro ‘report this link’ era suficiente para enterrá-lo.

O porquê disso é simples, os links da fila de votação TÊM QUE SER OBRIGATORIAMENTE INTERESSANTES, se não forem os usuários não navegarão por ela e conseqüentemente não se manifestarão a respeito de maneira ativa. Quando o altruísmo sai de campo e o egoísmo deixa de ser aquele bichinho feio, que todo mundo esconde, para ser o rei do pedaço, a fila de votação se torna irrelevante e esdrúxula, e quem vai até ela é simples e friamente quem tem negócios a realizar ali. E por negócios entendam, usuários clones, panelinhas, e qualquer outra forma artificial de promover conteúdo.

Querem um exemplo palpável? Entrem em qualquer digg-Like nacional e façam uma busca pelo extremamente importante assunto para os apreciadores da cultura glútea nacional “Mulher Melancia” e contem a quantidade de links e o brilhantismo das chamadas, chega a ser patético o fato de que todos aqueles links estavam em fila de votação.

Criou-se um ciclo vicioso, uma fila de votação que não é interessante faz com que os links de capa também não o sejam, o que afasta o usuário normal do site como um todo - afinal, se a capa não é interessante, o que poderá ser? - e deixa apenas o usuário que está em busca de autopromoção, que termina por gerar conteúdo que em sua maioria é irrelevante, que torna a fila de votação desinteressante, ad infinitum.

Aliás, as filas de votação de link se resumem a adornos que beiram a inutilidade, eu naveguei sei lá por quantas páginas delas em vários desses digg-like, e a quantidade de votos não seria suficiente para eleger síndico de prédio pequeno.

Pe-pe-pe-pe-pe-pera aí... se as filas de votação de link não têm, ou quase não têm, votos, como é que estes links são promovidos à capa? Em boa fé eu vejo dois cenários possíveis, os votos são todos ou em quase totalidade feitos a partir do site que publica o material, através de botões, ou então estes digg-like não são tão operados por crowdsourcing quanto apregoam ser (coisa que na minha opnião pesaria a favor deles, só precisando ser explicitada).

Partindo do princípio que os links não são enviados de forma colaborativa, e sim autopromocional *E* que não se vê votos nas páginas de fila de votação, o que leva a crer que links sejam promovidos com os votos provenientes dos próprios sites que os enviaram ou pela própria editoria do digg-like, a conclusão é muito simples: os digg-like no Brasil só são sociais da boca para fora, factualmente, são um concurso para ver qual site consegue mais votos, mais rapidamente. Reduzem-se pois, a “Top 30” glorificados…

Que fique claro, não estou dizendo que os editores dos digg-like agiram em prol disso, apenas deixaram acontecer. O usuário autopromocional que não tem autocrítica com o que publica em seu próprio site, não dá a mínima para a qualidade de terceiros, eu vejo isso acontecer TODO dia, de 250 links que chegam ao Uêba, quase 200 são descartados, destes pelo meno 50 são absoluto lixo e 50 não teriam sido enviados se o usuário lesse as regras de envio.

O efeito colateral, entretanto, é perverso. Muita gente acha que estes sites são sociais, inclusive alguns “experts”, ou seja, se até gente que supostamente deveria ser capaz de analisar e deduzir a diferença não consegue fazê-lo, o que se dizer do usuário leigo, que vê estes sites pelo que dizem ser e não pelo que são?

Aí chegamos ao Yahoo, Buzz e Yahoo!Posts.

O Buzz é uma ferramenta genial, o fato de cruzar os links com as buscas feitas no portal para calcular relevância, é uma excelente sacada. Mas se o Yahoo o tivesse trazido para o Brasil do jeito que é e pronto, iria encontrar um sem número de pessoas acostumadas à estética existente “a lá Top 30”, “eu envio e meus usuários votam”. Mas o Buzz é uma ferramenta de formato definido, e isso obrigaria o Yahoo a bater de frente com muita gente ao tentar preservar este formato, o que seria um transtorno para a marca.

O fato é que se está apresentando a um grupo de 3 milhões de usuários únicos diários que acessam a capa do Yahoo, um mundo que a maioria ignora, o dos blogs, o dos produtores independentes de conteúdo. E a este grupo de produtores de conteúdo se abre um mundo de possíveis usuários que se pode trabalhar e converter.

O Yahoo, por sua vez, tem nas mãos um laboratório onde poderá exercer uma evangelização, e aos poucos inserir e testar ferramentas de cunho social e/ou semântico, evoluindo o sistema. Em mais de uma ocasião foi declarado por pessoas ligadas ao projeto que o número de blogs irá crescer com o tempo. Pensem bem, vocês acham que o crescimento será barrado pela limitação de publicação manual de conteúdo?

É preciso ser feito um longo e gradual trabalho, e quem sabe um dia, trazer o Buzz para cá. Ou será que nossos “experts” em mídias sociais não conseguem imaginar a evolução de algo?



Os links abaixo têm conteúdo relacionado ao que você acabou de ver:
-Yahoo! Posts, o que é de fato o projeto, visto por dentro
-O mês em que eu dominei o Digg, e como isto pode lhe ser útil
-Os 10 erros mais comuns cometidos ao enviar um link para o Uêba
-Cultivando Fontes - Parte 1
-Digg ameaçado de perder o nome?
Se você está vendo as imagens "anti-leech", force o recarregamento da página com CTRL+F5 (no caso de Firefox ou Internet Explorer - Windows) ou CTRL+R no Linux.

10 Comentário(s)

  1. taty | Aug 7, 2008 | Reply

    eu não digo isso como funcionária do yahoo!, mas como aspirante a blogueira: o yahoo! posts é o projeto mais fantátisco que já surgiu na blogosfera vindo de um grande portal. ele é focado no que realmente deveria importar nos blogs, que é o conteúdo de qualidade, e muitíssimo bem mediado por pessoas que entendem do assunto. e, se prestarmos atenção às críticas feitas até agora, vemos que não passam da mais pura dor de cotovelo, sejam críticas pífias ao layout ou à seleção de blogs. é o que, se eu não me engano, o interney já disse: quem fala mal de blogueiro que ganha dinheiro é blogueiro que não sabe como ganhar dinheiro.

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  2. Navarro | Aug 7, 2008 | Reply

    Caramba Knuttz, simplesmente SENSACIONAL! Perfeito! Existem ótimos blogs de nicho que deveriam ter, em seus autores, ação de envio para sites como o Uêba. Indicar conteúdo relevante é crucial para que ferramentas digg like funcionem e atinjam seus propósitos. O bom senso, infelizmente, não colabora, como você bem disse.

    Há enorme carência de conteúdo diferenciado na web brasileira e, justamente por essa razão, acredito que modelo de negócio usado por você no Uêba e em projetos com o Yahoo Posts! tem tudo para dar retorno, visibilidade e agregar (de verdade) conhecimento e valor para seus leitores. Ao mesmo tempo em que existe muita porcaria por ai, existe muito texto bacana, que merece ser compartilhado. Sucesso!

    Grande abraço.

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    Gilberto "Knuttz" respondido em August 8th, 2008 00:01 am:

    Navarro, o envio de conteúdo de baixa qualidade está tão sério que eu começo amanhã a rodar um sistema interno de classificação de sites, um “índice Uêba”. Bolei aqui algo que vai me permitir pontuar e gerar um ranking de sites, baseado em “N” variáveis que eu estou definindo.

    Com isso eu vou poder estratificar a minha fila de envios, isso vai privilegiar a boas URLs e dificultar mais ainda a aprovação de quem não tem critério ao enviar material.

    Sites como o seu, e de outras pessoas que enviam material altamente selecionado, vão sair ganhando com a aplicação do índice.

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  3. Rafael R | Aug 7, 2008 | Reply

    A verdade é uma só: brasileiro não tem cultura pra lidar com tais características, e tentar algo parecido pode ser ruim. Infelizmente, nada a curto prazo pode ser pensado nesse sentido. Quem sabe um dia, quando os políticos se preocuparem com o povo, quando o povo começar a pensar de uma forma coerente, quando as coisas começarem a andar de forma certa. Até lá, o que podemos fazer é tentar em vão.

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    Gilberto "Knuttz" respondido em August 8th, 2008 00:03 am:

    Falta o espírito colaborativo, para vc ver como isso é raro, eu sei o nome e URL do único usuário que constantemene tem contribuído com links para conteúdo externo, de cabeça.

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    Fábio Buchecha respondido em September 27th, 2008 01:04 am:

    Seria o Carlos Romero? Porque também é o único que eu sei :-)
    E ele sempre apresenta links interessantes, diga-se de passagem.

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  4. Paulo Victor | Aug 8, 2008 | Reply

    enquanto eu lia eu falava palavrões, eu não nego que estou entre os blogueiros que enviam matérias porém tenho o senso crítico de só enviar os que pelo menos eu considero relevante/interessante. Escuto muito que a blogosfera é uma panelinha, e eu sempre discordo os maiores blogueiros estão sempre dispostos a conhecer e informar, afinal é isto que fazemos. Mas o que não dá é pegar uma matéria que já foi pega em outro lugar postar no seu e enviar para digg-links. Acho que deveria rolar algo na blogosfera pra educar e conhecer, é algo tão recente que cada um faz o que está afim de fazer.

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    Gilberto "Knuttz" respondido em August 8th, 2008 00:51 am:

    Foi justamente por isso que eu coloquei a ressalva no começo do texto, não tinha como ficar falando o tempo todo que me refiro apenas a quem não tem senso crítico ;)

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  5. Ana | Aug 8, 2008 | Reply

    Cara, posso estar super-viajando, porque3 não sou socióloga, mas logo de cara percebo isso como uma consequência virtual da absoluta falta de cidadania, de noção de coletividade, e do individualismo do povo.

    Aquele que faz cada um por si e um por todos, que faz todo mundo querer tirar vantagem de todo mundo, essa característica tão peculiar que a gente vê todo dia andando na rua, no trânsito, nas filas, nas repartições públicas, em casos de vandalismo…

    Não existe uma consciência do coletivo, que todo mundo é dono de algo e precisa contribuir igualmente praquilo crescer, inclusive ajudando outras pessoas. Falo isso no geral, uma cultura que existe, não to falando que 100% das pessoas é assim.

    Repito que posso estar viajando… mas é algo a se pensar.

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  6. Isaias Malta | Aug 14, 2008 | Reply

    Depois que li este artigo sobre as entranhas da blogosfera, não há dúvidas sobre o conhecimento de causa de quem está falando!
    Sou novato em mecânica blogosférica, mas consigo reconhecer o mérito de uma coisa, o interfaceamento com os newbies, que você Knuttz, conseguiu perfazer de maneria genial. Quando tento explicar para as pessoas o que é o Uêba, eles entendem quando consigo chegar ao essencial, “é um lugar onde você encontra um monte de coisas interessantes”. Então, eles visitam e entendem epidermicamente.
    Só posso creditar este fenômeno a uma editoria auspiciosa, que contrabalança judiciosamente as várias “pontas” da Internet num todo coerente.
    Imagine a minha surpresa quando, ao navegar neste cybervida entre casas de isopor e calças jeans de 1890, me deparei com uma aula visceral, uma metanarrativa da Internet brasileira, pondo as nossas mazelas lusófonas no ventilador e verdadeiramente ensinando os blogueiros novatos a acertar seus rumos para figurar na primeira página do Uêba!
    Este post, vai além de uma mera FAQ, porque leva a reflexões, desde o desenvolvimento de uma estética de apreciação sobre o próprio trabalho, até à descoberta da virtude do altruísmo.
    Caso os blogueiros novatos precisassem de uma bíblia, certamente seu gênesis já estaria escrito, e ele se chama singelamente Uêba, digg-likes, Yahoo Posts e “experts”.
    Por meu turno, só tenho a expressar o meu muito obrigado pela aula!

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